O amplificador conclear pela ótica da Cultura Surda

27/09/2011 18:49
Por Ricardo Canozo

 
    “Eu comecei a enxergar o mundo de uma forma mais animada, antes era como aqueles filmes do Charles Chaplin, preto, branco e mudo, com a diferença que esses filmes são legais. Tenho achado muito bons os momentos em que descubro um som novo, é de uma felicidade indescritível”. Este é o relato do estudante Rodrigo Andrade Rabelo de 23 anos, sobre sua visão de mundo após a cirurgia do IC (implante coclear), realizada há seis anos.O implante coclear é um dispositivo eletrônico que estimula as fibras nervosas remanescentes e permite a transmissão do sinal elétrico para o nervo auditivo. O sinal é decodificado pelo córtex cerebral.
    A opinião sobre o IC não é unânime, divide a comunidade dos surdos em dois grupos: arte, como o Rodrigo, é favorável, vêem-no como ferramenta para uma comunicação mais eficaz. Outros, por verem a surdez como uma diferença e não como deficiência, são contra e alegam que, como o implantado não vai se expressar perfeitamente como o ouvinte, não terá identidade cultural nem com os surdos, nem com os ouvintes.
    O antropólogo Duarcides Ferreira Mariosa explica que “o desejo de inclusão para poder se inserir impõe-se como necessidade, de se sentir amparado profissionalmente, por exemplo”. Para ele, as principais características da cultura surda são construir um mundo sem som, de movimentos, sinais, toques e visual. Esta é a referência deles e esta maneira de ver o mundo que lhes dá identidade. “Quando isto muda, perde-se esta identidade,” frisa.
    Todos os sábados, uma igreja do bairro Cambuí, em Campinas, realiza reuniões com surdos. Rodrigo, mesmo depois de fazer o implante, resolveu participar desses encontros, mas revela que “a experiência não foi muito prazeroza”. Segundo ele, existe um distanciamento entre quem faz uso apenas da Libras (linguagem brasileira de sinais) com aqueles que realizaram o implante coclear. “Fica difícil a interação”, desabafa.
    A perda da audição pode ser ocasionada por doenças pré-natais, infecções em vida, ou pode ser genética. Rodrigo era ouvinte até os nove anos, quando sofreu um acidente e, ao acordar no hospital, perguntou por que sua mãe e tia estavam sussurrando. Ele teve perda total de audição nos dois ouvidos, mas frisa que isso “não foi muito impactante”. Para ele, “ouvir era como respirar, não era um sentido que eu prestava muita atenção.”
    O médico Paulo Porto, que realizou o implante em Rodrigo Rabelo, deixou claro que o IC não representa um milagre, pela necessidade de se treinar a audição e que os resultados variam em cada paciente. Esclareceu também que, em alguns casos, mesmo com o aparelho, pode haver bloqueio do som até a cóclea e prejudicar o implante em um determinado lado da cirurgia. Outro risco é a possibilidade de ocorrer uma infecção na região em contato com o aparelho externo.
    Rodrigo optou por fazer o implante porque sentiu-se seguro com as explicações médicas mesmo sabendo dos problemas que poderia enfrentar. “Existem alguns mitos sobre o implante, como não poder praticar esportes, mas eu continuei fazendo equitação”, exemplifica. Sua cirurgia foi feita pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ele passou por um processo de seleção, que envolve acompanhamento psicológico e a avaliação da equipe de IC, que analisa se a pessoa está apta a fazer a cirurgia ou se vai negligenciar o tratamento. “É preciso muito treino, acompanhamento psicológico e fonoaudiólogo”, lembra Rodrigo que até hoje faz o acompanhamento clínico.
O IC é contra-indicado para casos de pequena perda auditiva, quando os médicos recomendam o uso do aparelho de amplificação sonora individual (AASI). Até 2004 o implante não era indicado para menores de 12 anos para que a opinião do paciente fosse levada em conta. Hoje, a ciência aponta que, quanto mais cedo o implante for realizado, aumentam-se as chances de ganho auditivo. No caso de Rodrigo, que foi operado aos 17 anos, o ganho auditivo foi de 90%, ou seja, a cada 100 sons que ele percebe, consegue identificar 90. “Estou mais integrado ao mundo dos sons. Melhorou bastante a minha socialização, comunicação e segurança pessoal, como no trânsito”, revela. Mesmo com o aparelho desligado, ele se sente feliz. “Às vezes, é legal poder desligar o aparelho e se perder nos pensamentos em ambientes muito barulhentos,” finaliza Rodrigo.
Identidade - No Brasil há mais de 5 milhões de surdos. A cultura dessas pessoas é retratada no documentário Identidade Surda que transmite informações sobre a surdez e sobre como relacionar-se com deficientes auditivos. O objetivo deste filme foi o de quebrar preconceitos sobre a dificuldade de se relacionar com uma pessoa surda.
Som e Fúria - O implante coclear já foi realizado em mais de 60 mil pessoas em todo o mundo e o documentário Som e Fúria (Sound and Fury, 2001, USA), de Josh Aronson e Roger Weisberg, focaliza a polêmica sobre essa cirurgia entre os surdos. Som e Fúria recebeu o Oscar de Melhor Curta-metragem de Ação Real em 2002.
Linguagem - O livro "O vôo da gaivota", da autora surda Emmanuelle Laborit (1996), relata as formas de linguagem utilizadas pelos surdos e, segundo ela, qual seria a mais adequada. Uma delas é a linguagem de sinais , que no Brasil esteve proibida durante a ditadura militar. Ainda hoje recebe olhares diferentes das pessoas que utilizam apenas a linguagem oral, apesar de haver uma movimentação para que a libras seja reconhecida nas áreas da educação e da comunicação.
    A autora defende a idéia de que nada deve ser recusado aos surdos e que todas as linguagens podem ser utilizadas, a fim de se ter acesso à vida. Entre essas formas de comunicação há o bilingüismo, linguagem dos sinais acompanhada da fala, o oralismo e a leitura labial.
Passo a passo - veja como funciona o implante coclear nas imagens do site http://www.pbs.org/wnet/soundandfury/cochlear/cochlear_flash.html.